Avançar para o conteúdo principal

O Lobo das Estepes - Herman Hesse


Há muito que não me identificava tanto com um livro. Há livros assim, com um sabor azedo que nos sabem bem. Não é o sonho que comanda as linhas deste livro, não é a felicidade o seu objectivo principal... é o reconhecimento. Herman Hesse espelha-nos no seu lobo das estepes, identifica-nos com o não enquadrado civilizado da personagem, o estranho, o absurdo, o desejo, mas acima de tudo o egoísmo do autoconhecimento.

Esta personagem que nos apresenta e nunca satisfaz o que queremos, observa-nos os nossos incómodos, as inquietações, analisa o silêncio que queremos calar, desenquadra-nos do real e atira-nos os nossos medos, faz-nos julgar moralmente o que não temos direito de julgar, descobre a morte como fuga doce e medo da perda do que nunca tivemos. Viagens alucinantes...


"Assim também, resumindo, o Lobo das Estepes não é senão uma ficção. Quando Harry se sente e se assume homem-lobo, e se crê constituído por duas naturezas hostis e opostas, isso não passa de uma mitologia simplificadora. Harry não é de modo nenhum homem-lobo, e se nós, aparentemente, sem nos apercebermos, assumimos essa sua mentira, por ele próprio inventada e feita realidade, e procuramos efectivamente encará-lo e interpretá-lo como ser duplo, como Lobo das Estepes, mais não fizemos que aproveitar-nos de um equívoco, na esperança de melhor sermos compreendidos, equívoco esse que agora importa tentar corrigir."


Herman Hesse in O Lobo das Estepes

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Eu Quero Viver - Nina Lugovskaia

Andei a ler este livro, terminei-o há 2 dias e tive uma grande desilusão. Bem, é certo que eu já não tinha gostado de "O Diário de Anne Frank", por isso, também não gostei deste. Passei o livro todo a pensar que a jovem era normalíssima apesar de viver no regime de Estaline. As preocupações eram as mesmas de qualquer jovem com a idade dela, aliás até a achei um pouco acriançada dadas as circunstâncias e os seus 18 anos de idade. Enfim, um fiasco! Não consigo gostar mesmo, porque fico sempre à espera de detalhes e pensamentos que eu acharia próprios da época e do contexto e acabo por achar que as jovens sofreram um bocado sim, mas isso não as fez diferentes da grande maioria dos jovens de hoje com a mesma idade, inclusivê esta abusa do egocentrismo e preocupação estética de uma forma quase doentia. Gostaria de ter mais para dizer, mas de facto, o livro não me despertou grande atenção. Na minha opinião: não comprem!

Onde não pertenço

Todos os anos o mesmo fado, mala às costas e aí vou eu. Assim, desde os 18 (talvez mais cedo, mas não com tanta frequência), para onde vou não sei bem, mas agarro-me à ideia fixa de que sou ribatejana e sinto saudades do Tejo tão meu e tão distante há tanto tempo. Necessidade de ter origens, de ter resposta quando me perguntam todos os anos "de onde vens?" quando eu queria era saber responder para onde vou...e fico. Adapto-me, pertenço, enquadro e interiorizo a nova identidade do que não posso mudar. E depois, onde pertenço é onde estou, todos os anos... para o ano podem perguntar-me só de onde venho?!?!? É que já não sei muito bem de onde sou neste livro que escrevo com a pena carregada de saudades e desilusões.

D. Sebastião e o vidente, de Deana Barroqueiro

É um calhamaço!! Conta com 629 páginas, rebuscadas, com um vocabulário erudito, muitas personagens, mas ... fascinante! Este livro, obviamente, relata a história de vida de D. Sebastião com todos os pormenores, desde a mãe que o deixou, à sua deformidade física, ao seu caráter, bravura... Assim, este pequeno rei, em tamanho e em idade, demonstrou a sua infantilidade nos rasgos de bravura. Inocente, sonhava com a guerra, mas soube antever os interesseiros que lhe apareceram pelo caminho. Existe também Miguel, um menino que nasceu no mesmo dia que ele e que o acompanha ao longo da história, mas que acaba por nunca conseguir aproximar-se o suficiente. É ele o vidente do título, mas a sua personagem acaba por não ser muito "útil", uma vez que é incapaz de mudar o rumo dos acontecimentos, limita-se a admirá-lo ao ponto de o acompanhar à morte. Quem não conhece D. Sebastião, o desejado, aquele que desapareceu em Alcácer Quibir e que regressará envolto no nevoeiro. Cá te es...