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Abandonada, Anya Peters

Outra leitura realizada. Esta mais ao meu gosto, histórias verídicas.
Violento, brutal, angustiante.
Este livro é autobiográfico e só por isso arrepia. A que ponto vai a maldade humana? A que ponto o que vivemos se reflete ao longo do nosso destino?
Anya, criança, infeliz, mal-amada, sacrificada, corajosa. Não sei porque ordem ordenar as palavras e qual delas a mais importante no seu percurso. Anya foi uma criança nada desejada, que descobriu o amor nas migalhas do caminho. Rodeada de adultos egoístas, cresceu no terror de perder o amor de uma mãe que não era a sua, na violência de um "tio" manipulador e animalesco, na profundeza pouco clara de ser odiada pelos seus "irmãos". 
O relato das atrocidades que sofreu são de arrepiar e despertaram em mim o meu lado assassino de justiça popular. Anya, que escolhe sempre os mesmos caminhos por falta de opção, de pertença, de amor... de ter sido sempre o sinónimo egoísta do ato de benevolência de alguém. Terias sido mais feliz se te tivessem retirado da tua família? Aposto que sim. A dor de serem os nossos a provocarem o ferimento é um peso que se carrega para sempre. E não é leve o fardo. Anya sobrevive, no sentido verdadeiro que a palavra transmite. São regadas de dor estas páginas. São letras e palavras que despertam uma infinita revolta pelo que somos, enquanto humanos, capazes de não o ser. Força, Anya!

O livro foi lançado em Portugal pela Porto Editora, em 2008. Aduiri-o em segunda mão.




"Kathy veio passar alguns dias connosco e só me lembro dela e da Mamã sentadas a falarem baixinho e a chorar a maior parte do tempo. Quando ela e Brendan voltaram para a Irlanda, a Mamã piorou. Usava óculos escuros quando ia connosco ao centro da cidade. A cabeça dela tremia, andava com os nervos à flor da pele e chorosa, mantendo as meninas à sua volta como se fossem suas guarda-costas sempre que eu tentava sentar-me ao pé dela ou simplesmente aproximar-me. Eu sabia instintivamente que era a sua maneira de tirar da cabeça todas aquelas coisas horrorosas que tinha sido obrigada a ouvir na esquadra, mas, ainda assim, magoava-me senti-la a afastar-se de mim."

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