6.12.16

Abril despedaçado

Olá,

a minha última leitura foi Abril Despedaçado, de Ismail Kadaré. É um livro publicado pela editora Publicações Dom Quixote, com tradução de Magda Bigotte de Figueiredo, com a 1.ª edição de maio de 2002.
Este livro trata-se de uma obra inspirada nas antigas tragédias. Relata a saga de vingança enraizada numa zona montanhosa da Albânia, que ceifa vidas, ou seja, a vingança é o motor económico da região, além de assente em variadíssimas tradições seculares que apelam à constante renovação de derramamento de sangue ou de exílio voluntário.
Confesso que não gostei do livro e que me desiludiu. Talvez ainda não tenha a maturidade necessária para apelar aos constantes monólogos interiores das personagens.
Não recomendo e não voltaria a ler.
A fotografia da capa não corresponde à edição que eu li, mas foi a que encontrei. Sei também que existe um filme brasileiro baseado neste livro e que tem o mesmo nome.


31.10.16

Sou o último judeu

Olá,

a minha última leitura foi Sou o último judeu, de Chil Rajchman. É um livro com 140 páginas, que se lê muito rapidamente para quem bom estômago para digerir a atrocidade de uma descrição pormenorizada do que foi um campo de exterminação.
O autor, é também o sobrevivente de Treblinka. Destinado à morte, tornou-se "dentista". Retirava os dentes de ouro ou de diamante que os mortos das câmaras de gás produziam. Aqui, ficamos a saber os horrores das casas dos horrores, a crueldade que não achamos possível pertencer a tantos humanos. A descrição sórdida do poder desvairado, que achamos apenas próprio de seriall killers. Medo!
Medo que o mundo se transforme novamente neste ódio terrível e indescritível. Medo que o Homem não tenha aprendido o suficiente. Já passou! Verdade que sim, mas não passou assim há tanto tempo e o desejo é que nunca se esqueçam, para que jamais se repita.

"De Inverno, os criminosos deixam as mulheres destinadas às câmaras de gás a um frio de vinte e cinco graus negativos. Há cinquenta centímetros de neve e os criminosos riem: "Que bonito!"
Em Dezembro de 1942 foram instaladas piras para queimar os cadáveres. Mas os cadáveres não queriam arder, por isso tiveram de construir um queimador segundo normas precisas. Enquanto um motor soprava o ar, os cadáveres eram regados com uma grande quantidade de gasolina. Mas continuavam a não querer arder correctamente. Quando muito, arderam assim uns mil corpos, o que não bastava aos assassinos."

Este livro tem também fotos (a preto e branco) de Treblinka, de oficiais e de ex-prisioneiros. A tradução foi feita por Telma Costa e a editora é a Teorema.

Recomendo a leitura a todos os que se interessam pelo tema.


17.10.16

Prémio Nobel da Literatura 2010

Olá,

por falar em prémio Nobel da Literatura, concluí ontem o título Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Varghas Llosa, Nobel da Literatura em 2010. Já o tenho há algum tempo, mas confesso que a capa (como a que vêem) pouco apelativa, da editora D. Quixote, não contribuiu para que me apressasse a lê-lo. Nunca tinha lido nada deste autor e confesso que esperava uma leitura tão enfadonha como a capa. Fui surpreendida!
O livro, apesar de não ter uma leitura muito fácil, é extremamente irónico e humorístico, além de ser... atual. Narra a história de um exército, que à força de violações "consegue" que o Exército permita um serviço de favores sexuais, dirigido pelo capitão Pantoja, exímio em qualquer das suas missões, que o leva a sério e trata este "departamento do Exército" com extrema disciplina e diligência. Custa-lhe um casamento que a obrigação recupera e, por pouco, a despromoção pela ordem cumprida ao limite. Escusado será dizer que entre as mais curiosas descrições se encontram inúmeros relatórios muito curiosos e cuidadosos.
Pantoja ou Pantita para as suas visitadoras, como chama às suas prostitutas, que trata como soldados, racionalizando a sua função e os serviços prestados à nação, é um funcionário irrepreensível, como nos vamos apercebendo ao longo da narrativa e objetivamente consegue que o seu serviço tenha um grande sucesso e eficácia quer para soldados, que para visitadoras. No entanto, desagrada a D. Leonor, sua mãe, que a custo do seu materno amor, se mantém a seu lado até contra à sua nora, que descobrindo a missão secreta do seu cônjuge, se envergonha e o abandona com a sua "filhinha".
No fim, tudo acaba quase como começou, tudo porque a consciência deste capitão, o levou a honrar uma visitadora "morta em combate", envergando a farda do Exército no seu funeral.
Não leria novamente este livro, mas não direi que desgostei e reconheço-lhe inovação e novidade ao nível da escrita e estilo. Talvez tente outro título do autor.

"- Dez soles à Sandra, pelo mesmo motivo que as outras - ergue o indicador, escreve Pantaleão Pantoja. - Leva o teu comboio para o embarcadouro, Chupito. Boa viagem, e vamos lá ver se trabalham com alma e convicção, meninas.
- Comboio para Puerto America, a caminho - ordena Chupito.
- Agarrem nas vossas malas. E, agora, vamos para o Dalila, a correr e a saltar Chuchupinhas."






22.9.16

Sem tempo...

As leituras não pararam, eu é que parei de as comentar aqui.
Os amigos não desapareceram, eu é que deixei de os ver tantas vezes.
O trabalho não acabou, eu é que tenho menos tempo para ele.

Porquê?!

Porque tenho algo que me interessa mais que isso tudo: sou Mãe e há tanta coisa que muda, menos o prazer de ver o seu sorriso e sentir o seu cheiro.




4.4.16

O leitor, de Bernhard Schlink

Bem, as maravilhas da maternidade não me têm deixado muito espaço para leituras, mas tenho-me redimido sempre que posso e o sono me permite.
Entre outras leituras (escassas) o título acima foi a última.

Tinha curiosidade em ler este livro há já algum tempo, também devido aos positivos comentários que causou o filme que ele proporcionou.
Foi uma leitura agradável, apesar de achar que, por vezes, se tornava monótono nas suas descrições de divagações, não propriamente essenciais para a progressão do enredo.
Conta-nos, então, a história de um adolescente que se apaixona por uma mulher  mais velha que não sabe ler, mas que nunca o confessa e, devido a isso, envereda por uma profissão menos glamorosa, guarda num campo de concentração. É também essa profissão que a leva à prisão. Não abriu as portas de uma igreja em chamas, que albergava mulheres e crianças judias, vindas de um campo de concentração. Não querendo nunca declarar o seu analfabetismo, acaba condenada por muito mais do que fez. Sem ser inocente, esta personagem acaba por nos apaixonar pela sua ignorância e pelo amor da leitura ouvida por presidiárias e pelo adolescente apaixonado. Damos por nós na vereda da pergunta e da ignorância de não sabermos se havemos de perdoá-la pelas circunstâncias da vida, se pela retidão do seu caráter submisso pelo analfabetismo e controlador pelo seu caráter.



A minha próxima leitura é muito mais a minha cara. Volto a Marion Zimmer Bradley, com A senhora de Avalon.

21.9.15

Arquipélago, de Joel Neto



Não sendo açoriana, moro nos Açores há alguns anos e foi com interesse que adquiri este livro. 
Inicialmente adorei-o, a história de José Artur como professor frustrado, cheio de ambivalências e vida pessoal conseguiu convencer-me que devia ler as 455 páginas que se apresentavam pela frente. O pitoresco da linguagem e a caracterização de personagens tão fiel a tudo o que vejo diariamente incentivavam o meu instinto literário, num livro que adquire um tom próprio e com poucos erros (detetei apenas 1) prossegui sem arrependimentos pela aquisição de 20 euros. No final, apaixonei-me pelo José Artur e pelo seu filho André e desfrutei do avô José Guilherme como se fosse meu.
De negativo, aponto talvez o bruxo, personagem que aparece no final e que me parece demasiado fantasiosa, mas penso que é apenas um apontamento pessoal. Sem dúvida que vale a pena ler e que o seu autor deve prosseguir na reflexão desta identidade.

12.8.15

A ofensa, de Ricardo Menéndez Salmón



Iniciei este livro com alguma espetativa. Gosto, normalmente, de livros sobre a Segunda Guerra Mundial. Este, foi uma desilusão. Centra-se, sobretudo, numa única personagem, que trabalhava como alfaiate, é recrutado para servir a Alemanha na sua atroz campanha mundial. Assiste ao primeiro massacre em massa e deixa de sentir. Entende, mas não sente, os seus orgãos ficam inanimados, ainda que vivos. O livro é muito curto e gira todo em torno da tentativa de voltar à "vida", deste humilde alfaiate. Lê-se muito rapidamente, mas desperta pouco interesse. Tem uma ótima encadernação e as folhas são de boa qualidade.

"Quando Ermelinde lhe anunciou que estava frávida, por um momento Kurt pensou que se daria o milagre. Mas aquela sombra de sensação, um breve relâmpago de calor ou de medo ou de plena e pura alegria que pareceu esboçar-se-lhe na nuca, um lugar onde - lembrava-se bem - se concentravam as emoções, enganou-o apenas durante um segundo."