30.1.17

O brilho azul das estrelas, de Laura Pritchet

Olá,

acabei há dois dias este livro que se lê facilmente. É uma narrativa que decorre a várias vozes, sendo que as principais são de Ben, protagonista da história, doente de Alzeimer; Renny, a esposa de Ben, mulher muito prática e Jess, uma das netas de ambos, que é considerada "esquisita".

Ben tem consciências que sofre de Alzeimer e tudo o que isso implica, então vai escrevendo recados a si próprio, para que possa recordar-se de quem é e que é a sua família. Não esqueceu a sua filha Rachel, assassinada pelo seu próprio marido, Ray.
No meio da confusão do seu próprio cérebro, Ben sabe que Ray já cumpriu a sua pena e saiu da prisão. Precisa de não se esquecer que o quer matar...
Toda a história gira em torno do seu objetivo e em como os que o rodeiam não o acham capazes de tal, mas todos desconfiam que o fará. No meio de toda esta turbulência, Renny descobre também, porque a morte da sua filha a afastou do marido, que já não se lembrava de como amar. 
As palavras póstumas são da neta estranha, que era mais parecida consigo, e que sempre soube que ele o ia fazer. Acompanha-o no deslumbramento pelo mundo e na vingança da paz.

É um livro profundo e leve.

" O outro perigo. Ray.
    Precisa do pedaço de papel que lhe diz onde e como lá chegar. Levanta-se e remexe em volta até o encontrar nas calças de ontem, e enfia-o no bolso das calças que tem vestidas. Tem de ter cuidado."



16.1.17

As raparigas

Olá,
terminei, ontem, o livro As raparigas, de Emma Cline. Foi-me oferecido no Natal. Foi editado em novembro do ano passado, pela Porto Editora. 
   Foi com algum receio que vi que a escritora era bastante nova, pois costumo gostar muito dos clássicos e os autores muito recentes, a maior parte das vezes parecem-me "verdinhos". Pois então, Emma Cline, nascida em 1989, propôs-se a escrever um livro sobre adolescentes nos loucos anos 60... e consegue. Ainda que não seja um livro arrebatador e, por vezes, se torne ambíguo, transmite-nos toda a estranha confusão que é a adolescência, a necessidade de aceitação, de amor, de pertença a uma sociedade (seja ela qual for), de existir, ainda que a cara não seja a nossa, o corpo emprestado...
    Evie, uma menina de boas famílias, talvez devido à vida familiar vazia e posterior separação dos pais, evidencia a necessidade de se revoltar ao mundo que não a vê. O divórcio dos pais permite-lhe ter uma grande liberdade, que a leva a querer experimentar, afinal está na fase em que tudo lhe é permitido. Empurrada pela sociedade da época envolve-se com um grupo (seita), que gira em torno de um líder, Russel. Este homem, mais velho do que a maior parte dos devotos adolescentes, que comanda ao sabor dos seus caprichos de estrela que nunca chegou a ser, usa as raparigas como forma de satisfazer os seus desejos sexuais, utilizando a técnica da valorização absoluta da felicidade e do prazer. As adolescentes competem entre si para ganhar a sua atenção e aceitam viver numa quinta mais ou menos hippie, mais ou menos refúgio de sem-abrigo ou adolescentes que não podem ou não querem voltar para uma vida imperfeita e insatisfeita. 
   Entre as muitas experiências eróticas e sexuais que lhes são permitidas, esta quinta permite-lhes a ilusão de liberdade absoluta. A necessidade de viver sem necessidade e esquecem a dependência que não julgam dessa forma, do grande Rei-Sol, Russel. 
   A história evolui com a Evie a fazer cada vez mais asneiras para poder pertencer àquele grupo que a acolheu e do qual passou a depender. Mesmo quando percebe que pode, a qualquer momento, voltar para uma vida "normal", Evie tende a voltar à dependência de Russel e Susane, a amiga que a seduziu para este mundo livre.
   Na parte final, Russel, percebendo que a sua estrela nunca seria lançada, arquiteta um assassínio de vingança. Susane e mais alguns são incumbidos de matar alguém. Na viagem, que Evie tenta fazer, ainda que desconhecendo ao que vai, Susane, num acesso de paixão ou medo, expulsa Evie do carro, a qual regressa à "normalidade".
   Posteriormente, a última soube que o seu grupo matou brutalmente 6 pessoas inocentes, incluindo uma criança. Russel tenta ilibar-se, mas todos acabam por ser presos e a quinta fechada. Evie martela no presente o seu passado e, sobretudo, continua a ter dúvidas sobre o que teria feito se tivesse continuado a viagem.

"Apontou para a casa degradada, o emaranhado de vegetação demasiado crescida. Todos os carros reduzidos a lixo e os tambores de gasolina e as mantas de piquenique abandonados ao mofo e às térmitas. Eu via, mas não absorvia nada: já me tinha armado contra ele e não havia mais nada a dizer."

in Raparigas, Emma Cline

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É previsto que o livro seja adaptado ao cinema.

3.1.17

A herdeira, de Marion Zimmer Bradley

Fiz mais uma leitura desta autora, que me é muito querida.
Ouvi dizer que foi acusada de pedofilia pela própria filha após a sua morte, será verdade?

Bem, este livro, apesar de intrigante em nada se iguala a outros que já li dela. Fala-nos da história de uma psicóloga, Leslie e da sua irmã, Emily. Mudam de casa e enredam-se numa história musical e assombrada. A antiga moradora da casa resolve escolher a sua sucessora em parapsicologia, mas tem um afilhado envolvido em magia negra. A personagem principal é a casa e tudo gira em torno dos fenómenos estranhos que lá acontecem. Interessante sem ser espetacular.
A editora é a Difel e tem 386 páginas. Tradução de Rute Rosa da Silva. Sem defeitos a apontar.



18.12.16

Inocência Perdida

Olá,

Inocência Perdida é chocante e sofrido. É um livro biográfico de Somaly Mam. Abandonada, vendida, casada à força, violada fisicamente e psicologicamente, foi escrava sexual num bordel. Esta mulher enfrentou o seu destino e escolheu revivê-lo todos os dias ao salvar outras mulheres do tráfico humano, da escravidão social e da morte. Ela conseguiu regatear a sua sorte e funda uma ONG que ajuda as mulheres escravizadas no Camboja.
Também tem um site no facebook https://www.facebook.com/afesip/
Durante a leitura do livro não queria a acreditar que esta história era tão recente, tão atual... senti repugnância por este mundo. Assusta-me o que vou deixar às outras gerações. É atroz o que as mulheres ainda vivem em algumas partes do mundo, é inacreditável que as culturas não se modifiquem com o tempo. 
Leiam, por favor. É um livro violento, que nos dá um murro no estômago, mas nos alerta para a triste realidade da escravidão sexual.
A minha edição é da ASA, de 2008 e tem 173 páginas. Custou-me, se não estou em erro, 7 euros no facebook, mas está marcado a 12,60 euros.

"No meu segundo ano na escola, cheguei a ser a primeira da aula. Naqueles dias, sob o regime comunista, os melhores alunos recebiam prémios significativos: rolos de tecido, leite e arroz. Nesse ano, eu recebi dois rolos de tecido, azul e cor-de-rosa. Levei-os para casa de Mam Khon e a mulher dele ajudou-me a cortar e a coser uma camisa cor-de-rosa com um bolso em forma de coração, e uma saia azul. Eram os meus bens mais preciosos, as primeiras roupas novas que alguma vez tinha tido. Guardei aquela blusa até aos meus vinte anos, e ela ardeu junto com a casa de Mam Khon, durante um incêndio."

Escolhi este pequeno excerto por ser dos poucos momentos do livro onde a felicidade espreita. E espreita por tão pouco.


6.12.16

Abril despedaçado

Olá,

a minha última leitura foi Abril Despedaçado, de Ismail Kadaré. É um livro publicado pela editora Publicações Dom Quixote, com tradução de Magda Bigotte de Figueiredo, com a 1.ª edição de maio de 2002.
Este livro trata-se de uma obra inspirada nas antigas tragédias. Relata a saga de vingança enraizada numa zona montanhosa da Albânia, que ceifa vidas, ou seja, a vingança é o motor económico da região, além de assente em variadíssimas tradições seculares que apelam à constante renovação de derramamento de sangue ou de exílio voluntário.
Confesso que não gostei do livro e que me desiludiu. Talvez ainda não tenha a maturidade necessária para apelar aos constantes monólogos interiores das personagens.
Não recomendo e não voltaria a ler.
A fotografia da capa não corresponde à edição que eu li, mas foi a que encontrei. Sei também que existe um filme brasileiro baseado neste livro e que tem o mesmo nome.


31.10.16

Sou o último judeu

Olá,

a minha última leitura foi Sou o último judeu, de Chil Rajchman. É um livro com 140 páginas, que se lê muito rapidamente para quem bom estômago para digerir a atrocidade de uma descrição pormenorizada do que foi um campo de exterminação.
O autor, é também o sobrevivente de Treblinka. Destinado à morte, tornou-se "dentista". Retirava os dentes de ouro ou de diamante que os mortos das câmaras de gás produziam. Aqui, ficamos a saber os horrores das casas dos horrores, a crueldade que não achamos possível pertencer a tantos humanos. A descrição sórdida do poder desvairado, que achamos apenas próprio de seriall killers. Medo!
Medo que o mundo se transforme novamente neste ódio terrível e indescritível. Medo que o Homem não tenha aprendido o suficiente. Já passou! Verdade que sim, mas não passou assim há tanto tempo e o desejo é que nunca se esqueçam, para que jamais se repita.

"De Inverno, os criminosos deixam as mulheres destinadas às câmaras de gás a um frio de vinte e cinco graus negativos. Há cinquenta centímetros de neve e os criminosos riem: "Que bonito!"
Em Dezembro de 1942 foram instaladas piras para queimar os cadáveres. Mas os cadáveres não queriam arder, por isso tiveram de construir um queimador segundo normas precisas. Enquanto um motor soprava o ar, os cadáveres eram regados com uma grande quantidade de gasolina. Mas continuavam a não querer arder correctamente. Quando muito, arderam assim uns mil corpos, o que não bastava aos assassinos."

Este livro tem também fotos (a preto e branco) de Treblinka, de oficiais e de ex-prisioneiros. A tradução foi feita por Telma Costa e a editora é a Teorema.

Recomendo a leitura a todos os que se interessam pelo tema.


17.10.16

Prémio Nobel da Literatura 2010

Olá,

por falar em prémio Nobel da Literatura, concluí ontem o título Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Varghas Llosa, Nobel da Literatura em 2010. Já o tenho há algum tempo, mas confesso que a capa (como a que vêem) pouco apelativa, da editora D. Quixote, não contribuiu para que me apressasse a lê-lo. Nunca tinha lido nada deste autor e confesso que esperava uma leitura tão enfadonha como a capa. Fui surpreendida!
O livro, apesar de não ter uma leitura muito fácil, é extremamente irónico e humorístico, além de ser... atual. Narra a história de um exército, que à força de violações "consegue" que o Exército permita um serviço de favores sexuais, dirigido pelo capitão Pantoja, exímio em qualquer das suas missões, que o leva a sério e trata este "departamento do Exército" com extrema disciplina e diligência. Custa-lhe um casamento que a obrigação recupera e, por pouco, a despromoção pela ordem cumprida ao limite. Escusado será dizer que entre as mais curiosas descrições se encontram inúmeros relatórios muito curiosos e cuidadosos.
Pantoja ou Pantita para as suas visitadoras, como chama às suas prostitutas, que trata como soldados, racionalizando a sua função e os serviços prestados à nação, é um funcionário irrepreensível, como nos vamos apercebendo ao longo da narrativa e objetivamente consegue que o seu serviço tenha um grande sucesso e eficácia quer para soldados, que para visitadoras. No entanto, desagrada a D. Leonor, sua mãe, que a custo do seu materno amor, se mantém a seu lado até contra à sua nora, que descobrindo a missão secreta do seu cônjuge, se envergonha e o abandona com a sua "filhinha".
No fim, tudo acaba quase como começou, tudo porque a consciência deste capitão, o levou a honrar uma visitadora "morta em combate", envergando a farda do Exército no seu funeral.
Não leria novamente este livro, mas não direi que desgostei e reconheço-lhe inovação e novidade ao nível da escrita e estilo. Talvez tente outro título do autor.

"- Dez soles à Sandra, pelo mesmo motivo que as outras - ergue o indicador, escreve Pantaleão Pantoja. - Leva o teu comboio para o embarcadouro, Chupito. Boa viagem, e vamos lá ver se trabalham com alma e convicção, meninas.
- Comboio para Puerto America, a caminho - ordena Chupito.
- Agarrem nas vossas malas. E, agora, vamos para o Dalila, a correr e a saltar Chuchupinhas."