

Se calhar tudo depende do dia e da disposição em que nos encontramos. Se calhar de manhã cedo ainda estamos permeáveis a todas as aventuras literárias e ao fim da tarde já treslemos, e queremos é tudo como manda o figurino clássico, sujeito, predicado, complemento directo, ponto final, parágrafo.
E se clahar nem todos os dias nos apetece um Nobel, ou a Maria Gabriela Llansol, por muito que os amemos.
E é verdade que a literatura não se faz só com eles. Se, como se costuma dizer, são precisos dois para dançar o tango, também na literatura - em todas as literaturas, de todos os países - são precisos autores que preencham os diferentes registos da escrita.
Mas Portugla é, em vários domínios, um país estranho: normalmente só produz génios. E por isso produz pouco. Temos Camões e Pessoa. Temos Carlos Lopes e Rosa Mota. Temos Eusébio e Figo. Mas falta a grande massa donde estes deveriam ter emergido.
Na literatura dos nossos sias acontece o mesmo: ou temos os grandes nomes, ou temos os (very) light que nos alumiam muito pouco.
Que é dos outros?
Estava eu nestes angustiantes pensamentos quando uma manhã, ao entrar na minha livraria habitual, comecei a folhear (juro: perfeitamente ao acaso) um livro chamado "Amor em Segunda Mão", nem tanto pelo título nem pelo nome da autora, que não conhecia de parte nenhuma (juro pela segunda vez), mas pura e simplesmente porque a capa me remetia para um quadro de Magritte, uma das minhas velhas paixões.
Segui o conselho do meu amigo Gonçalo e lá comecei eu a picar uma frase aqui, outra acolá ("Uma viagem sozinha nunca é apenas uma viagem"
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"... e pensei que um casamento não podia ser só aquilo. Aquele sofá de pele, a mesa de abas e uma fotografia. A Teresa dizia que era uma casa em construção, mas ao fim de sete anos de namoro era apenas uma sala de espera de um dentista e isso era de uma tristeza que me abalava a garganta e prendia os lábios a cigarros sucessivos"
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"Uma vez pensou mudar de carro, num stand da volvo, brincou
Se tenho um volvo antes dos 30, o que é que eu tenho aos 40?
O vendedor sorriu e, certo da sua comissão , respondeu
Um Bentley."
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"Não vais ser jornalista o resto da vida.
Por que não?
Porque é um desperdício.
Um desperdício, Susana, é um pano que se tem no carro para limpar as mãos.")
- e, de repente, estava eu sentada nos sofás da livraria (pois é, ainda há livrarias com sofás, e um balcão de café...) a ler este livro da Patrícia Reis como deve ser lido, ou seja, do princípio.
Ia para aí a meio quando achei que o quevia levar para casa.
Já passava das três da manhã quando acabei de o ler. No dia seguinte pus-me a fazer telefonemas a amigos meus, "diz-me lá quem é esta Patrícia Reis, de quem eu nunca ouvi falar", e eles a berrarem comigo porque, pelos vistos, toda a gente a conhecia muito bem - menos eu. Que fazia isto e mais aquilo, que dirigia a "Egoísta", que tinha trabalhado em jornais, enfim, que era uma vergonha eu fazer perguntas daquelas.
Portanto aqui fica, desde já, a confissão da minha ignorância (atenuada, se possível, pelo facto de nestes últimos tempos eu estar atacada de trabalho por todos os lados) - mas também a confissão do meu agrado pelo livro que li. Não sei se é um grande romance, não sei se é uma obra-prima - sei que não se consegue largar enquanto não se chega à última linha. E quase apostava que acontece com todos os leitores deste livro aquilo que aconteceu comigo: quando chegamos à última linha, começamos outra vez do princípio.
É uma história de amores e desamores, encontros e desencontros, de uma ideia de felicidade que parece certa e para sempre até ao momento em que se apercebe que a felicidade não se pode escrever daquela maneira
("Então como é que estão as coisas com o Miguel?
E a Júlia respondeu
Ah o meu marido e eu somos muito amigos.
Foi a coisa mais triste que alguma vez ouvi.")
de vidas que se cruzam do tempo que se passa na rua, nos empregos, nos hospitais, nos consultórios, nos jornais, na educação das crianças, nos divórcios, numa floresta de enganos e decepções, em que só os mais fortes (Júlia) conseguem a custo sobreviver.
É, no fundo, como se estivessemos a ser espectadores de vidas que conhecemos do nosso dia-a-dia, a nossa, quem sabe, a dos amigos que vivem ao nosso lado.
E quando, neste nosso estranho tempo, todas as depressões se tentam curar no divã do psiquiatra - eis que a Júlia decide enfrentar os seus problemas ... ao lado de um cavalo, de seu nome Romeu, na penumbra refrescante de um picadeiro algures na cidade.
Depois, num artifício bem conseguido, a autora decide, mesmo já no fim do romance, voltar atrás no tempo. E aí as coisas adquirem uma nova luz, e a história uma nova dimensão.
E lá vamos nós ler tudo outra vez de novo - e tudo é diferente, e agora sim, agora os objectos estão finalmente no lugar certo das prateleiras.
Alice Vieira in Os Meus Livros, Junho de 2006
Pois é amigos, Patrícia Reis soava-me a litertura (very) light. Pelos vistos não é, mas ainda não estou convencida. Aceitam-se opiniões e sugestões.
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