
Eram as últimas horas do dia quando chegámos ao princípio da calçada que leva ao alto de Santarém. A pouca frequência do povo, as hortas e pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as vizinhanças de uma grande povoação descaída e desamparada. O mais belo contudo dos seus ornatos e glórias suburbanas, ainda o possui a nobre vila, não lho destruiram de todo; são os seus olivais. Os olivais de Santarém, cuja riqueza e formusura proverbial é uma das crenças populares mais gerais e mais queridas!... os olivais de Santarém lá estão ainda. Reconheceu-os o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei neles o símbolo patriarcal da nossa existência. Naqueles troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver as venerandas imagens de nossos passados; e no múrmurio das folhas que o vento agitava a espaços, ouvir o triste suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degeneração dos netos...
Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarém é ainda um monumento.
Subimos, a bom trotar das mulinhas, a empinada ladeira - eu alvoraçado e impaciente por me achar face a face com aquela profusão de monumentos e de ruínas que a imaginação me tinha figurado e que ora temia, ora desejava comparar com a realidade.
Chegámos enfima o alto; a majestosa entrada da grande vila está diante de mim. Não me enganou a imaginação... grandiosa e magnífica cena!
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra
Nota: o negrito serve para sublinhar toda a ignorância de alguns beirões quando uso a mesma palavra.
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