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Os pais e a leitura

Tento ser coerente e perceber a situação dos pais, mas de facto não compreendo uma série de coisas. Quando assumimos a responsabilidade de ter um filho, considero que devemos tentar fazê-lo da melhor forma possível. É certo que os tempos não são fáceis, mas que a falta de tempo e de dinheiro não sirva de desculpa para todo o género de irresponsabilidades. E são muitas...
Tento, nas minhas aulas, estimular o gosto pela leitura através de todo o tipo de atividades que sirvam esse propósito, mas obviamente que não poderei estimular os pais. Hoje, no Clube de Leitura, e porque a escola tenta a todo o custo eliminar a falta de hábitos culturais, foi realizado um inquérito acerca dos hábitos de leitura familiares. Detetou-se que a maior parte das revistas que aparecem pelas casas são as "cor-de-rosa" e a maior parte dos alunos nem sequer se lembra de ter visto os pais com livros na mão a não ser para lhes limpar o pó e, ainda assim, quando os há lá por casa. Isto é tanto ou mais ridículo quando a maior parte dos pais de que falo tem horários flexíveis, dispõe de imenso tempo no café a falar da política local, mas nem sequer percebe que utiliza incorretamente o futuro do conjuntivo. O que estes pais não entendem é que vedam aos seus filhos a hipótese de serem cidadão ativos capazes de reclamar os seus direitos ou de perceber os seus deveres. Os meninos riram-se com as respostas dadas, mas não perceberam a falta que lhes faz, quando já no 3º ciclo de escolaridade muitos deles não conhecem o significado da palavra "predominar"; contudo todos eles afirmaram que o programa preferido dos pais são as novelas, que seguem religiosamente. Estes pais, que podem dispensar cerca de quase (ou mais) duas horas diárias de novelas, não podem (e não querem) verificar se os seus filhos realizaram os trabalhos de casa propostos, se já arrumaram o material necessário para o dia seguinte ou sequer impor um horário de acordo com a faixa etária dos seus educandos. Estes são também os pais que não impõem castigos porque no tempo deles as coisas resolviam-se de outra forma, estes são os pais que acreditam que os professores ganham demasiado para fazer tão pouco, estes são os pais que irão sustentar os seus filhos até que os seus ossos nada mais aguentem, porque, infelizmente, se esqueceram de ser pais no verdadeiro significado da palavra.
Acho estranho que os pais não considerem o dicionário (uma simples edição de bolso) uma ferramenta de trabalho dos seus filhos, estes são os pais que qualquer tostão em livros se revela uma fortuna. Estes são os pais que ao detetarem as irresponsabilidades dos seus rebentos lhe oferecem presentes por serem alunos que o sistema obriga a razoáveis. Estes são os pais que nada tiveram e tudo querem dar, mas que se esquecem que a maior riqueza está na educação, na cultura, nos afetos e não no número de equipamentos eletrónicos que existem lá em casa.
Vivi com os meus avós, aqueles que mal sabiam ler pelo abandono precoce dos estudos, mas que sempre me incentivaram a ser diferente, a querer mais sem nunca perder de vista que o que é mais difícil na vida sabe melhor! Que me ensinaram que posso ser raínha se souber pensar sozinha, crescer na sociedade... e é com alguma tristeza que percebo que os meus alunos terão uma vida mais difícil que os pais, mas...que nem sequer vão perceber.

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