
Romana Petri é italiana, desconfiei. Como é que uma italiana vai escrever um livro de Portugal, ainda por cima com 567 páginas?! e desenrolado ao longo do século XX?!
Margarida, mulher sofrida, sem casa, apaixona-se por Carlos Freitas, que lhe deixa uma casa arrendada, uma filha e mágoa de um grande amor casado e com aspirações financeiras maiores.
Custódia, solteirona, casa com galã machista, Belmiro, que gosta de dinheiro e muitas mulheres. Vive amargurada, mitigando a sua dor de forma egoísta e singular. É patroa de Margarida, a quem deverá os poucos momentos de felicidade da sua vida.
Maria do Céu, filha de Margarida, afilhada de Custódia. Mulher forte e lutadora, como a sua mãe, cria 3 filhos de um marido ausente, Tiago, traidor e fraco.
Rita, Vasco e Joana, filhos de Maria do Céu e Tiago ficamos a conhecê-los e com vontade de saber o resto das suas vidas.
Ainda conhecemos Violeta, uma deficiente física, irmã de Belmiro, que cuida de Maria do Céu, mas nunca é aceite pelo irmão.
Este livro retrata-nos as histórias das primeiras três mulheres, envolvendo-nos numa narrativa que ocorre em Portugal, Lisboa, e nos prende desde a primeira personagem. Fala-nos de personagens imperfeitas, de erros repetidos, de destinos emendados e de maternidade, do amor maior, dos filhos. Aliás, o amor parece-nos de várias formas, singular, despedaçado, sofrido, retomado, estranho, mas... amor. As personagens desfilam aos nossos olhos, odiamo-las e amamo-las com a mesma intensidade e no fim... apetece-nos mais.
"Maria do Céu esboçou um sorriso, para entrar no jogo agarrou a mão da mãe e encostou-a à boca como se recuperasse a língua que depois mostrou fazendo uma careta. Não havia janela naquele vão de escada, para arejar era preciso abrir a porta, embora o ar que entrava daquela maneira fosse pesado e cheirasse a mofo. Aquilo que nunca entrava naquele cubículo era a luz. Margarida dizia-lhe sempre que sem luz não há vida, e falava-lhe sempre da pequena casa que tinham quando ela nascera, uma casa pobre, mas com uma janela que dava para os telhados de Lisboa e para o Tejo. Maria do Céu pensou que a casa que tinha encontrado tinha a mesma vista, mas não disse nada à mãe para não a afligir. Quantas vezes tinham passado diante da porta daquela casa! E de todas as vezes Margarida fazia-a parar e dizia-lhe "Foi aqui que nasceste." Diante daquela frase, Maria do Céu sentia sempre uma dor do peito, como um abrandamento da respiração, uma oclusão. Ao dizer aquela frase a mãe ficava radiante e ela sentia-se morrer. A casa, a casa onde os seus pais se tinham amado, a casa onde o seu pai enganara a sua mãe. Ainda o esperava? "
Este livro serviu também para integrar o desafio #marçofeminino. Escrito por uma mulher e sobre mulheres.
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