
Acho que a divisão da vida do Homem deveria ser entre o antes e o depois de entrar no mercado de trabalho.
Até concluir a minha licenciatura fiz questão de viver tudo aquilo a que tinha direito. Vivi no ditirambo da apoteose final.
Fui feliz, chorei, amarguei, trabalhei, fui responsável, agredi, magoei, fui magoada, dorida, escrava, desesperada, entontecida com a vida de viver ao rubro. Como só estivesse bem tudo aquilo que me fizesse sentir viva e bem. Desafiei até ao limite todas as regras do que podia jogar e gozar. Esforcei-me por tirar o meu curso (que me deu um bilhete directo para o desemprego) onde fui aluna exemplar, sem nunca deixar de usufruir.Nunca me apercebi que o sabor do momento era a vontade de saborear no momento cada minuto. Sabia, sempre soube, que o tempo passa demasiado rápido para que nos possamos arrepender do que quer que seja.
Hoje a minha loucura é mais branda e encontrou a serenidade que as emoções exarcebadas não deixam perceber. Não estou velha, nunca estarei enquanto não me sentir assim. Mas entrei noutra estação, aprendi outros sabores, eduquei a emoção num estado contido e delicioso numa calma benovolente.
Tinha um amigo que nunca questionava o que fazia fossem quais fossem as consequências dos meus actos, porque ele dizia que a razão estava sempre connosco enquanto nos sentissemos bem assim, e que essa escolha fazia parte da nossa liberdade individual.
Construi-me como ser único caminhando com as cabeçadas e as felicidades desencontradas.
Hoje sinto-me bem assim, porque tudo tem um momento. Eu aprendi a saborear novos sabores. Não tive pressa de cá chegar... cheguei sem que fossem precisas ajudas. Perdi talvez a urgência do momento, o ditirambo zonzo, mas ganhei mais...muito mais.
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